Henri Toivonen (25/08/1956 – 02/05/1986)

O mais destemido

Henri Toivonen foi o meu piloto de ralis preferido. Na realidade, foi “O” meu piloto de ralis. Pela sua coragem, pela sua destreza, pela sua capacidade de andar sempre a fundo, sem medo. E aliava a tudo isso uma simpatia e simplicidade que não estão ao alcance de todas as grandes figuras públicas. Foi por ele que, em 1986, fui para a estrada ver passar o Rali de Portugal.

Esta foi a minha estreia no Rali de Portugal/Vinho do Porto. Atraído pela brutalidade e poder dos Grupo B, fiz-me ao caminho até à Serra de Sintra, nessa altura o templo dos ralis mais próximo de Lisboa. Calcorreei a serra a pé, pacientemente e com frio, depois saltei para o asfalto da Lagoa Azul e, mais tarde, subi para o alto de um muro de pedras. Estava em segurança e ainda consegui vibrar com a passagem dos primeiros carros – os monstros, mecânicos e não só, pois ao seu volante estavam outros monstros, estes já então sagrados, na história dos ralis. O que mais me impressionou, curiosamente, era o menos eficaz: o MG Metro 6R4. Depois, fez-se silêncio – e, mais tarde, soube do acidente terrível do Joaquim Santos. Foi a minha primeira e última vez na estrada, com o Rali de Portugal – a partir daí, fiz vários, mas em trabalho. Ah! Acresce dizer que não me lembro, hoje em dia, da passagem do Henri Toivonen.

Morte súbita
Mas lembro-me da sua morte, dois meses mais tarde, na Volta à Córsega. E lembro-me também como fiquei em choque, quando li a notícia – nunca mais tive nenhum outro ídolo nos ralis, nem quando conheci o Carlos Sainz e a sua disponibilidade, simpatia e profis-sionalismo quase me seduziram. Comoção semelhante, apenas a tive quando morreu o Ayrton Senna – e fui assinar o livro de condolências na Embaixada do Brasil, ali por trás de Sete Rios; e devo confessar que nunca gostei do piloto brasileiro, talvez porque simplicidade e simpatia não estivessem entre os seus principais atributos públicos. Mas estas são outras histórias; por isso, voltemos à de Henri Toivonen.
Em Maio de 1986, o dia 2 foi um sábado; nessa altura, eu vivia numa pequena casa de um andar, na zona da Matinha, sem telefone e, claro está, sem computador portátil, sem Net e sem telemóvel, coisas então ainda no domínio da ficção. A forma como soube da morte de Henri Toivonen e do seu navegador, o ítalo-americano Sergio Cresto (que nunca ninguém recorda, quando se fala de Toivonen!) foi quando comprei “A Bola”, ao velho ardina que, manhã cedo aos domingos, se fazia anunciar pela estridente melopeia do seu assobio. Ao olhar a capa, estaquei de estupefacção, voltei para casa e subi devagar as escadas; tinha lágrimas nos olhos, de certeza – ainda por cima, tinha desaparecido há pouco tempo outro dos meus ídolos, o Stefan Bellof. E mal eu sabia que estava a poucos dias do acidente mortal de Elio de Angelis, mais um piloto que eu admirava e que pagou com a vida o preço da sua paixão.

Pé de chumbo
Henri Toivonen nasceu numa família de pilotos, pois o seu pai, Pauli, era já então um dos principais vultos nos ralis finlandeses, tendo-se mesmo sagrado Campeão da Europa em 1968. Por isso, não é de estranhar que se tenha estreado aos 19 anos, no “seu” Rali dos 1000 Lagos, em 1975. Durante a sua carreira relativamente curta (apenas 12 temporadas…), fez parte de quatro equipas oficiais: Talbot (1980-81), Opel (1982-83), Porsche (1984) e Lancia (1985-86). Foi com a Talbot que venceu o seu primeiro rali do Campeonato do Mundo, o RAC, em 1980. Participou em apenas 40 provas pontuáveis para o Mundial e venceu somente três: para lá desse RAC, Toivonen subiu ao lugar mais elevado do pódio de chegada de novo no RAC, na sua estreia em 1985 com o Lancia Delta S4 e, pouco depois, no Monte Carlo de 1986, prova em que pela primeira vez teve a seu lado Sergio Cresto.
A sua principal característica, ao volante, era andar sempre a fundo, aliando isso a um domínio espec-tacular do carro; tal como Gilles Ville-neuve, para Henri Toivonen era muito mais importante o espectáculo e o prazer retirados de uma condução em que colocava toda a sua alma, do que gerir uma prova em função dos resultados; por isso, ambos venceram tão poucas corridas nas suas vidas.
Aliás, a carreira de Toivonen foi interrompida por duas vezes, devido a acidentes violentos – da primeira, com um Porsche 911 Turbo, magoou as costas, em 1984, perdendo o Campeonato da Europa de Ralis por ter ficado ausente em metade das provas; da segunda, foi em 1985, no Rally Costa Smeralda, prova também pontuável para o Europeu e onde Toivonen, com um Lancia 037 Rally, sofreu um grave despiste, fracturando três vértebras no pescoço, falhando uma paralisia total por milímetros e ficando afastado das provas durante meses. Mas, no seu regresso, nos Mil Lagos, provou que em nada tinham ficado afectadas as suas magníficas capacidades, terminando em 4º lugar.
Uma curiosidade, sobre a carreira de Henri Toivonen, que começou a conduzir o carro do seu pai Pauli aos cinco anos de idade: apesar de ser um dos principais vultos das ralis mundiais, começou no “karting”, antes de vencer uma Taça de Velocidade no seu pais, em carros de Turismo. Depois, virou-se para os monolugares, ficando em 2º lugar no campeonato finlandês de Fórmula Super V. Porém, a segurança nos circuitos nessa altura era quase nula e a família obrigou-o a abraçar uma carreira nos ralis a tempo inteiro – uma ironia do destino, ficou a saber-se mais tarde.

Texto: Hélio Rodrigues

8 respostas a Henri Toivonen (25/08/1956 – 02/05/1986)

  1. Armando C. diz:

    Que fantástica “viagem no tempo”.

    … se não fosse pela “Bola”, podia ter saído directamente das minhas memórias.

    Muito Obrigado.

  2. Alex diz:

    Foi a primeira vez que me identifiquei a 100% com um tão incondicional fã deste, que também é o meu herói… Tinha apenas doze anos quando o vi pela primeira vez, aqui em Paredes de Coura, numa sessão de treinos privada de que quase nem se ouviu falar… Fiquei tão abismado com a monstruosidade do ruído daquele motor mesmo ao ralenti, que, quase inadvertidamente um impulso me levou a ‘saltar o muro’ para ir ao seu encontro para o admirar de mais perto, por entre mecânicos e… Piloto! Em vez de sofrer algum tipo de afastamento e para minha surpresa, Toivonen sorriu, cumprimentou-me e, num inglês entorpecido, convidou-me a ver a máquina mais de perto… De repente, a tal máquina deixou de ser o meu principal interesse… Aquela simplicidade natural, bem como a sua inquestionável simpatia, provocaram-me arrepios… Desde então e até àquele fatídico dia na SS18, fui seguindo-o através dos meios disponíveis na altura (jornais, revistas…). Foi um choque que, uns anos mais tarde voltaria a sentir com a morte de Senna… Obrigado por este maravilhoso post…

    • Eu é que agradeço, por partilhar esses momentos inesquecíveis. De facto, só os grandes Homens têm reacções assim e Henri Toivonen, para lá de um enorme piloto, era também um grande Homem. Depois dele, apesar de virtuosos com Colin McRae, Carlos Sainz, Tommi Makinen ou, agora, Sebastien Loeb, nunca mais me identifiquei com nenhujm da mesma forma que o fiz com Toivonen.

  3. Eduardo diz:

    Uma sincera homenágem a todos os pilotos que conduziram os GrupoB e que nos deixaram memórias inesqueciveis.

  4. henrique diz:

    Nesta época eu tinha dez anos e aqui no brasil não se falava no WRC. Morava em uma fazenda e um dia li numa revista sobre um tal de grupo B. Só há pouco tempo, já adulto, descobri o que era e me apaixonei. Quando vejo os vídeos é como se me transportasse pro passado e quando vi o HENRI em ação é como se já o visse. Aqueles rallys são mágicos, volto no tempo

    • Tem toda a razão! O Sébastien Loeb pode ter sete títulos de Campeão do Mundo, mas não tem a magia do Henri Toivonen. É como na F1 – o Michael Schuamcher pode ser sete vezes campeão do Mundo, mas o carisma e o espectáculo estão com Gilles Villeneuve! Já não se fazem ralis como antigamente – nem F1, é claro!

      Um abraço

      Hélio Rodrigues

  5. Pedro torres diz:

    Ha tardes que nao se esquecem, como aquela tarde do dia 2 de maio de 86. Era uma sexta-feira e as aulas tinham acabado mais cedo. Lembro-me de ir para casa ouvir as informacoes da volta a corsega que passavam na radio (pedro castelo para a radio comercial). Ouvi falar num acidente tragico, mas sem conseguir perceber quem tinha sido. Lembro-me de ter pensado “espero que nao tenha sido o henri”. Lembro-me de o ver passar na rampa da pena em Sintra 86. Lembro de ouvir os tempos do Monte 86. Lembro-me daquela tarde soalheira de Maio…que mudou a minha vida. Obrigado Henri!

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