Destino trágico
Numa altura em que tanto se fala do regresso à F1 de Michael Schumacher, o alemão que por sete vezes venceu o Campeonato do Mundo, talvez seja interessante revelar quem deveria ter sido o primeiro piloto dessa nacionalidade a conquistar o título, não fosse o destino esperá-lo de forma trágica em Monza, penúltima prova do campeonato. Aconteceu em 1961 e o seu nome era Wolfgang von Trips.
Wolfgang Alexander Albert Eduard Maximilian Reischgraf Berghe von Trips era o herdeiro de um rico vinhateiro da zona do Reno, ancestralmente ligado à extinta monarquia germânica. Aliás, Reischgraf significa que ele era conde.
Nasceu na pequena vila de Kerpen-Horren, nos arredores de Colónia e cresceu nas fazendas da família. Como jovem rico e oligarca, além disso encantador e bem-parecido, parecia destinado a uma vida fácil e sem objectivo social, gerindo os bens familiares desde cedo. Porém, nas veias corria-lhe outro desejo: ser piloto de automóveis, um desiderato, aliás, muito em voga entre os jovens possuidores de grandes fortunas nas décadas que se seguiram à II Grande Guerra.
Talento inato
Sem o acordo da sua família, que se opunha tenazmente às intenções do jovem rebelde, Von Trips decidiu ul-trapassar essa dificuldade, sim-plesmente adop-tando um pseu-dónimo; e foi como “Alex Linter” que se estreou, em 1953. De imediato chamou as atenções de um senhor chamado Alfred Neubauer – que era, nem mais nem menos, que a alma-mater da Mercedes-Benz na F1. Que não hesitou em o contratar, em 1955, para a sua equipa de Sport, com a garantia de, no ano seguinte, estar na F1.
Infelizmente, a tragédia das 24 Horas de Le Mans levaram ao abandono das competições por parte da marca alemã. Mas Von Trips estreou-se na mesma na F1, com a Ferrari, em 1956 – no dia 2 de Setembro, em Monza, no Grande Prémio de Itália, onde teve o seu primeiro acidente, ficando ferido.
Von Trips correu sempre de Ferrari, tanto na F1 como em corridas de Sport. Em 1957, participou somente em três provas de F1, depois de um violento acidente em Nurburgring, nos treinos para uma corrida de Sport, quase ter significado o fim da sua vida. Em 1958 continuou na F1 mas, no ano seguinte, decidiu concentrar-se na sua carreira nos carros de Sport. Regressou à F1 em 1960, como primeiro piloto da Ferrari e com a firme intenção de se sagrar Campeão do Mundo de F1. E quase o conseguiu, logo no segundo ano como piloto oficial de Maranello.
A força do destino
10 de Setembro de 1961. Local: Circuito di Monza, no Parco Nazionale di Monza. Evento: Grande Prémio de Itália de F1. Penúltima prova do Campeonato do Mundo desse ano, bastava apenas um 3º lugar para Wolfgang von Trips, líder do Mundial após duas vitórias (Grã-Bretanha e Holanda), se sagrar Campeão. Seria o primeiro piloto alemão a conseguir tal feito.
Infelizmente, o destino não quis assim. Autor da “pole position”, batendo o seu colega de equipa e rival no campeonato, o norte-americano Phil Hill, von Trips estava em luta directa com o escocês Jim Clark. Ainda na primeira volta, na recta antes da Parabólica, os dois carros tocaram-se rodas com rodas e o Ferrari, após dois piões, levantou voo e terminou a trajectória no meio da multidão, que ladeava a pista. Von Trips e mais 14 espectadores morreram, naquele que foi um dos mais graves aciedentes da F1 e mesmo do desporto automóvel.
A Ferrari não retirou os seus outros carros, Hill venceu a prova e garantiu o título. Para Von Trips, ficou o vice-campeonato, a título póstumo – o primeiro; depois dele, também Ronnie Peterson foi, em 1978, vice-campeão do Mundo depois de ter morrido, igualmente em Monza e igualmente num dia 10 de Setembro.
Para Von Trips, este foi o terceiro acidente sofrido na pista dos arredores de Milão: em 1956 e 1958 tinha apenas ficado ferido; desta feita, não resistiu. Aos 33 anos, um dos mais carismáticos e envolventes pilotos da sua época, terminou a vida e carreira na F1, após 29 Grandes Prémios disputados. A crença de que o seu destino estaria traçado nesse ano, já que o voo que o teria levado aos Estados Unidos, para a derradeira prova do Mundial, se despenhou sobre a Escócia, não passa de um mito urbano.
Porém, não é mito outra realidade. Depois da sua morte, a sua família, que nunca tinha aliás concordado com a sua paixão pelas corridas de automóveis, desfez-se do pequeno kartódromo que possuía, nos arredores de Kerpen. O seu comprador foi um tal Rolf Schumacher que, anos mais tarde, daria o nome de Michael ao seu primeiro filho.

