DKW/Auto Union 1000S

Pé ligeiro

Os DKW ainda hoje são inconfundíveis. O seu perfil arrojado de coupé aerodinamicamente bem tratado, aliado ao frágil ruído dos seus motores de três cilindros, continua inimitável. O DKW de que vou falar teve um fim triste, abraçado a um poste depois de uma luta improvável.

“Dê-cá-vê” – uma onomatopeia que ecoa na minha cabeça, ainda hoje, tantos anos depois. Era vermelho, lembro-me bem – e foi esse pormenor que me deu a certeza de ser, não um original DKW, da marca construtora de motocicletas e automóveis, fundada em 1916 por Jorgen Skafte Rasmussen, mas sim um Auto Union 1000S, o modelo concebido pela casa dos quatro anéis. O seu tejadilho branco, mas principalmente o vidro dianteiro dobrado para trás, aumentando dessa forma a visibilidade do condutor para a estrada e dando-lhe uma forma ainda mais aerodinâmica e futurista, são os pormenores finais da decisão: aquele DKW que terminou a sua vida, numa estrada ribatejana, algures no início da década de 70, era mesmo um AU 1000S. Mais duas coisas recordo desse carro: o ruído asmático do seu motor de três cilindros e o fumo azulado que, invariavelmente, saía do seu fino tubo de escape.
Este DKW pertencia ao animador dos bailaricos locais, tocador exímio de acordeão, e que andava sempre “nas horas”, fazendo guinchar os frágeis pneus do seu DKW, em correrias animadas pelas estradas quase impraticáveis dessa altura. E foi numa dessas “corridas” improváveis, que uma manobra de recorte menos fino, surpreendeu o automobilista que tinha aceite o desafio – e que, assim, não teve maneira de evitar o porta-bagagens afilado do DKW, atirando-o contra um avantajado poste de iluminação pública, escondido nas sombras de duas enormes nespereiras, que bordejavam a velha estrada. O afoito condutor não sofreu mais que alguns arranhões, mas o infeliz DKW ficou destruído – e o acordeão não se livrou de andar em bolandas, lá pelo banco traseiro, gemendo incongruentes trinados de protesto.

Leve e veloz
O Auto Union 1000S era um carro muito leve. Graças ao seu perfil muito aero-dinâmico, era bas-tante rápido, apesar de possuir apenas um motor de 1 litro de cilindrada e três cilindros, com sistema de ignição com três bobinas e três velas, uma para cada cilindro. O sistema de refrigeração era também bastante curioso, funcionando sem bomba de água, através de um ventilador montado sobre a tampa do bloco do motor. Capaz de debitar até 55 cavalos de potência, o carro atingia uma velocidade máxima roçando os 140 km/h.
Lançado em 1957, foi produzido até 1964, mais tarde como “coupé”
desportivo de 4 lugares (2+2), designado AU1000Sp. O DKW – nome por que continuou a ser popularmente conhecido, embora a marca tenha sido absorvida pela Auto Union em 1932 – era um carro já tecnicamente bastante avançado para a sua época. Foi o primeiro dos carros de pequeno porte a trazer de origem um sistema de embraiagem automático, designado como Saxomat, oferecendo ainda travões de discos, como opção. A partir de 1962, o AU 1000S teve uma versão Convertible.
Atestando a sua veia desportiva, o DKW/Auto Union 1000S participou em diversas provas de velocidade e de estrada, sendo de destacar os vários recordes esta-belecidos na pista de Monza, por uma unidade derivada do modelo-base, designada precisamente DKW Monza. Este mais não era que um coupé de dois lugares e carroçaria fabricada em fibra de vidro. Um dos recordes que estabeleceu foi ter feito 10.000 quilómetros em Monza, a uma velocidade média de 139,453 km/h, feito notável para a época e para um carro de tão pequeno calibre. Apenas foram construídas entre 230 e 240 unidades do DKW Monza.

Texto: Hélio Rodrigues

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.