Castelo Rodrigo

A aldeia mártir da raia

Em Castelo Rodrigo, alcandorada numa colina bem no centro da planície que leva os olhares até Espanha, impressionaram-me as ruínas do castelo. De história em, história, fiquei a saber que esta aldeia medieval foi uma verdadeira mártir, destruída por diversas vezes ao longo dos séculos.

Muitas vezes, até, de propósito e como vingança, nas lutas particulares de senhores de guerra locais. Que, depois, iam buscar o povo para lá das muralhas, obrigavam-nos a abandonar as terras e a agricultura, seu modo de pobre subsistência, e faziam-nos reconstruir o palácio e as muralhas. Muitas vezes, matando-os de fome e de trabalho. Na raia com Castela, não há outra história assim. E não foi lenda – foi a realidade absoluta da rudeza que era viver então, em terra que, muitas vezes, não era de ninguém.

Xadrez de povos
Castelo Rodrigo terá sido fundada meio século antes de Cristo, estando esse movimento ligado aos Túrdulos. Na altura, a zona era ponto de passagem para Santiago de Compostela e a região está profundamente ligada aos monges cistercienses – aliás, a um quilómetro para lá das ruínas do castelo, encontra o convento de Santa Maria de Aguiar, erguido no Século XII e habitado por estes monges, que cultivavam também as terras em redor. Hoje, é uma unidade ligada ao turismo de habitação e rural.
Porém, Castelo Rodrigo foi ainda ocupada pelos vetões e pelos romanos, antes de ser habitada por muçulmanos – permanece intacta, na extensa rua da Cadeia, que atravessa a localidade de ponta a ponta, uma cisterna, que tinha a profundidade de 13 metros e onde eram purificadas as mulheres judias, quando neste povo começou a ser perseguido, na Idade Média. Nessa altura, Castelo Rodrigo pertencia já à coroa portuguesa, para onde passou através da assinatura do Tratado de Alcañices, em 1297. Um século antes disso, a região tinha sido repovoada pelo rei de Leão, Fernando II; o primeiro foral de Castelo Rodrigo foi-lhe atribuído por outro rei leonês, Afonso IX, sendo apenas revogado por segundo foral, no início do Século XVI, assinado pelo rei português Manuel I. É então que foi construído o pelourinho da vila, que ainda hoje se ergue, intacto e demonstrando a importância que a região nessa altura tinha no reino.
Das muralhas em ruínas, pode ver-se a planície onde se travou, a 7 de Julho de 1664, a batalha de Castelo Rodrigo, dura peleja incluída na guerra travada com Espanha após a restauração da independência de Portugal, e na qual o exército inimigo foi amplamente derrotado.
Em Castelo Rodrigo, imponente com o seu casario intra-muros, merece ser visitada a Igreja Matriz, construída sobre as ruínas do templo fundado pelos Templários, no século XII, dedicado a Nossa Senhora de Rocamador (ou Reclamador) e onde se pode apreciar uma comovente imagem de Santiago Matamouros.
A derradeira vez que o castelo foi destruído foi no final do reinado do espanhol Filipe II – e foi um acto heróico da população, que incendiou o palácio de Cristóvão de Moura, irada pela lealdade deste com a coroa estrangeira. E funcionou com uma espécie de grande vingança por todas as anteriores vezes que o povo viu arder e ser destruído o castelo de Castelo Rodrigo. Só que, desta feita, as ruínas não foram reconstruídas nunca mais – e permanecem intactas, imponentes como marco de viragem na história desta aldeia medieval.
A menos de um quilómetro, a subir para a Marofa, existe a Via Sacra, tortuoso e íngrime caminho, que leva ao alto da serra e onde, em cada curva, os cansados peregrinos de Santiago de Compostela são guardados e amparados por santuários, evocando cada um o doloroso percurso da Via Sacra, percorrida por Cristo no seu caminho até à cruz final.

Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Hélio Rodrigues e Clube Escape Livre

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