Simca Aronde P60

A 140 numa estrada dos anos 60

Lembra-se do Simca Aronde? Se a resposta for negativa, não faz mal: hoje, ele é um quase ilustre desconhecido. Mas, nas décadas de 50 e 60, foi um “ex-libris” da marca francesa, entretanto desaparecida. A minha família teve dois e, no mais recente, vivi uma experiência vertiginosa.

Na minha infância existem relâmpagos, alguns quase abstractos, sobre automóveis. Tenho algumas imagens desvanecidas de uma camioneta verde escura, talvez uma Ford ou Oldsmobile, que era do meu avô, numa noite de vento e chuva, algures nos primeiros anos da década de 60. Sei que era um carro norte-americano – mas, infelizmente, não sei mais nada. E também nada sei de uma furgoneta, com painéis laterais em madeira, que também fez parte da história motorizada da minha família.
Na minha memória existem ainda lampejos sobre duas palavras: Simca Étoile. Não recordo o carro, aliás nada sabia sobre ele; mas hoje sei que era uma versão económica do Aronde, nascida em 1961 e com um motor de 1090cc. E é aqui que entra o protagonista desta história.

Elegante e ligeiro
O Simca Aronde da minha infância era azul. E tinha pneus com bandas laterais brancas. Tinha quatro portas e um interior claro, talvez bege ou branco-sujo. Lembro-me que era espaçoso e os bancos esco-rregavam, porque não eram de tecido, mas sim de uma substância que, então, me parecia ser plástico. Não me lembro da matrícula, ao contrário do que sucede com outros carros da minha infância, mais recentes.
Historicamente, o Simca Aronde começou a ser produzido em 1951, num processo que terminou em 1964, cerca de 1,4 milhões de unidades depois. Foi, portanto, um sucesso. Teve várias versões – desde o familiar quatro portas, ao coupé de duas portas, sem esquecer a carrinha, a furgoneta e uma versão descapotável. E, claro, vários exercícios desportivos, pois o Aronde tem um palmarés interessante em algumas provas da época, especialmente as realizadas em França. Os seus motores, obviamente a gasolina, foram um bloco 1.1, um 1.2 (44,5 cv, apenas no 9 Aronde) e outro, mais potente, com 1,3 litros de cilindrada.
Existiram três séries (hoje, gerações), do Aronde: entre 1951 e 1955, o 9 Aronde (o carro substituiu o 8 e teve por base de design produtos chancelados pela FIAT); entre 1955 e 1958, o 90A Aronde; e, daqui até 1964, o Aronde P60. O “meu” era da década de 60 – e, portanto, era um P60.
Os Aronde apre-sentavam algumas novidades tecnológicas na época, como suspensão inde-pendente na frente, eixo semi-rígido atrás com molas semi-elípticas, tambores hidráulicos nos travões e cambota com cinco apoios. Os números indicam que o Aronde P60 era um carro interessante. Com o seu motor de 1290cc, que debitava 70 cv, demorava menos de 20 segundos a ir dos 0 aos 100 km/h e, na velocidade máxima, chegava aos 135 km/h.
O Simca Aronde P60 tinha uma carro-çaria elegante e com uma superfície vidrada aumentada em relação aos seus “irmãos” mais velhos. A bordo, o ambiente era claro, luminoso mesmo – algo raro para a época. Esta sensação de luminosidade ainda hoje está presente no meu baú de memórias automóveis.
Outra, bem mais vincada e poderosa, é a vertigem. Foi num Simca Aronde azul e de rodas com faixas laterais brancas, que pela primeira vez na vida, andei a 140 à hora! Recordo como se fosse hoje, o ponteiro do conta-quilómetros, branco, a lamber os três algarismozinhos: 1-4-0. Hoje, isso não é nada: há carros que, em segunda velocidade, ultrapassam essa marca. Mas, há mais de 40 anos, era obra!
A façanha acon-teceu num troço da EN362, que liga a EN3 a Porto de Mós, ainda hoje rápido, mas perigoso, com as suas pequenas curvas encadeadas, em que a visibilidade era minimizada com arbustos quase deitados na fita de asfalto. Nessa altura, as estradas eram de péssima qualidade e muito estreitas – e, quando digo estreitas, quero dizer pouco mais que uma fita de alcatrão degradado e sem cuidado nas bermas. Foi aqui, que o Simca Aronde P60 da minha infância saltitou de curva para curva, encantando-me com o deslizar no banco traseiro, enorme para o meu corpito de criança. É isto que me lembro – bem como o vertiginoso desfilar das oliveiras, lá fora, e dos arbustos a roçarem a carroçaria azul clara do carro. Dito isto, acredito que o Simca Aronde era aquilo que hoje chama de maneável, ligeiro e estradista, senhor de um bom comportamento e com um motor interessante, apesar da sua cilindrada relativamente baixa, para a época. Só podia…

Texto: Hélio Rodrigues

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