Aldeia medieval de Castelo Mendo

Pedras milenares

Castelo Mendo é um mundo de histórias. Ponto de defesa importante na Idade Média, perdeu essa importância com o alargar das fronteiras, até se quedar no marasmo. Foi este marasmo que conduziu a um quase abandono, perpetuado nas pedras destruídas. Porém, essas pedras escondem milhares de anos de História, que poderá ter começado na idade do Bronze.

“Castelo Mendo é uma das 28 freguesias que compõem o concelho de Almeida. A sua altitude é de aproximadamente 800 metros, dominando o vale de São Miguel, fronteiro ao rio Côa.”
Este é o primeiro parágrafo do folheto de apresentação da aldeia medieval de Castelo Mendo. São indicações destas que se podem encontrar em qualquer motor de busca na Internet e, claro está, na inevitável Wikipedia.
Não foram, contudo, estas frases perfeitamente turísticas que encontramos, quando visitamos Castelo Mendo, na manhã fresca de um desmaiado sol outonal, depois de numa noite de chuva.

Um mundo de histórias
Castelo Mendo surge de repente, no final de uma estrada estreita, rodeada de estevas e carrascais. A primeira impressão é notável: a estrada, em pedra batida pelos séculos, termina num largo amplo; do lado esquerdo, a vista profunda para o vale – o Barroco dos desejos, onde cada pedra lançada deve ser acompanhada por um desejo formulado; do lado direito, entre árvores frondosas, o pequeno cemitério do povo, onde as almas se aconchegam. Mas, a maior impressão vem daquilo que se vê em frente: a porta da vila, um arco perfeito, guardado por duas torres maciças, espraiadas depois para as muralhas. É isto que fica na memória, as primeiras sensações.
Entremos lentamente, quase com reverência: para lá da muralha, está um mundo de histórias. Que começam a ser contadas pelo grupo de habitantes, domingueiramente vestidos e que, logo ali, informam a fasquia para a idade média da população: “Uns 75 anos. Poucos há aqui com menos!” E, na verdade, no total são de facto poucos – uns 130.
Castelo Mendo encontra-se em óptimas condições de preservação. Cada parede, cada pedra, ressuma um passado de lendas, histórias de guerreiros e heroísmos. Foi em Castelo Mendo que se começou por defender o solo pátrio, contra os sarracenos que vinham do lado de lá da fronteira, quando esta era mesmo ali ao pé. Depois recuou para lá do Côa e a importância de Castelo Mendo perdeu-se. Ficaram os registos: o pelourinho, bem no centro da praça com o mesmo nome, atestando a importância do foral concedido pelo rei Sancho II, no século XIII; a Igreja de Santa Maria do Castelo, ainda imponente nas suas ruínas e em cuja torre uma família de cegonhas decidiu montar casa; a antiga casa da Câmara, pegada com a cadeia, hoje núcleo de história; o castelo, cujas pedras em ruínas escondem mistérios oriundos dos tempos em que o homem não conhecia ainda a roda; e o romance do Mendo e da Menda, elementos pétreos de origem celta, perpetuamente namorados, ex-libris da localidade.
A nossa visita foi lenta, com surpresas em quase cada esquina. E, de Castelo Mendo, trouxemos algumas histórias inesque-cíveis: o ancião, 98 anos confessos, escorreito que nem um “jovem” de 70, capaz de ficar ali a conversar durante horas, se o deixássemos; a burra Joana, apresentada rispidamente pela dona, em passo acelerado; a pipa de vinho a inchar na fonte; a loja de artesanato, a abarrotar de tesouros antigos e doces regionais; e, enfim, o insólito no meio das pedras ancestrais, um estendal de modernas e coloridas cuecas. À saída, ficou na alma a certeza de que seria fácil viver ali uns tempos: pelo menos, até ficarmos saciados de silên-cio, histórias de heróis e duendes, horizontes longínquos.

Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Hélio Rodrigues e Clube Escape Livre

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