Ninho de águias
Penha Garcia sempre me impressionou, desde que subi a estrada que, cá de baixo, de juntos dos velhos choupos que então existiam no cruzamento com a estrada principal, levava até ao casario, em meados da década de 70. Agora, 30 anos mais tarde, muita coisa mudou – menos a notável impressão de estar a chegar a um ninho de águias.
Penha Garcia, nessa altura – um Verão tórrido, daqueles à moda antiga! – vivia na lenda do tigre da serra da Malcata e no terror do assassino da Aldeia de João Pires, um acontecimento que não sei hoje descrever mas que as gentes então associavam à velha história do fundador da aldeia, João Pires de seu nome, no século XVIII. Ainda era normal subir lá acima, à serra, à procura de pedaços de quartzo – fui e, ainda hoje, tenho esse pedaço guardado.
Como, aliás, guardadas tenho as memórias dos campos de milho húmidos dos regadios, onde à noite, cantávamos canções dos Beatles e contávamos a história dos pássaros que gritavam lá em cima e que, segundo a lenda, gritavam assim… porque baixavam muito depressa e batiam, dolorosamente, com o… papo no chão! Não me lembro do nome desses pássaros; mas lembro-me bem de ir tomar banho aos pegos, lá em baixo junto aos moinhos de rodízio, quando ainda nem se falava da construção da barragem. Lembro-me, ainda, de ir a pé até um açude, a uns dez quilómetros por eucaliptais e estevais afora, sem outra bagagem que uma muda de roupa, uma tenda para todos e uma guitarra. Aí, lembro-me de uma refeição de carne guisada, em que o tempero foram folhas de eucalipto e ramos de esteva, porque o único tempero que levamos foi algum sal! Além desta, lembro algumas das melhores refeições que jamais saboreei, cozinhadas por gente da terra que nunca me tinha antes visto, mas que me acolheu em suas casas com se fosse mais um dos seus – entre elas, o melhor gaspacho gelado do Mundo!
Lembro-me, enfim, de dormir em águas furtadas, encharcado em suor, tal a força do calor nas telhas velhas e nuas. Nessa altura – quiçá como agora, mas mais ainda – Penha Garcia tinha a maior parte dos filhos da terra a trabalhar no estrangeiro, principalmente em França. E o Verão era exactamente quando regressavam – e foi na casa de um deles, a meio da subida que leva ao casario, que ouvi em primeira mão, num gira-discos de discos de vinil, os acordes da velha pérola da disco-music, “Born To Be Alive”, do francês Patrick Hernandez. Não fiquei fã, mas nunca mais me esqueci. E foram estas lembranças que me transportaram de novo a Penha Garcia.
Tempos modernos
Os tempos modernos trouxeram uma Penha Garcia a viver à sombra da barragem, que desvirtuou sem dúvida a selvagem beleza que ficou no meu coração.
Mas ainda estão lá os antigos moinhos de rodízio, hoje envoltos na frieza escrutinada pelo turismo de massas, formando o Complexo Moageiro de Penha Garcia. A Malcata ainda é o que era, mas sem as suas lendas. As ruas estreitas, que tanto calcorreei há duas décadas, continuam estreitas, escorregadias e abraçando canteiros de flores, de mistura com estendais de roupa perfumada pela última lavagem.
Logo à entrada da vila, lá está o velho canhão, agora acompanhado por um tanque militar, que outrora não existia. Começando a subir, eis o largo onde arde o madeiro, por alturas do Natal – e onde o povo se aquece nas noites geladas da quadra festiva. Depois, lá em cima, no largo da Igreja Matriz, estão as escadas (algumas, pois outras há, que levam ao cimo também) que sobem ao castelo, meio destruído, mas ainda guardião da paisagem fenomenal em redor: de um lado, o casario espraiando-se pela encosta (Penha Garcia é também conhecida como o Presépio das Beiras), a morrer na planície e com o rochedo enorme e único de Monsanto, sentinela ao longe; do outro, o lençol da barragem, as alturas da Malcata, fugindo para os lados de Monfortinho.
Nas escarpas do Castelo, ainda hoje as cabras saltitam energicamente de rocha em rocha: lembro-me delas nos locais mais absurdos, correndo atrás umas das outras – mas, por muito tempo que ficasse à espera, não me lembro de ter visto cair nenhuma!
Hoje, mais de 30 anos depois, Penha Garcia pode ter uma barragem, mais turismo, estar mais perto de tudo e de todos (para lá chegar, a bordo de um Citroen Dyane, demorei então quase um dia completo!); porém, apesar disso tudo, Penha Garcia continua a ser um ninho de águias, onde as gentes mantêm as antigas tradições e onde, ao serão, continua a ouvir-se o bater dos lavacolhos. Mas já não a voz da Ti’Catrina d’Avó, a Dona Catarina Carreira, que ainda cheguei a conhecer – nessa altura, já velhinha, mas ainda com uma enorme voz no olhar directo e feliz.
Texto: Hélio Rodrigues
Fotos: Hélio Rodrigues e Clube Escape Livre

Adorei ler o texto. Meu pai era natural de Penha Garcia. A minha mulher também. O meu avô era alfaiate nesta vila encantadora. Eu nasci em Lisboa e adoptei Penh a Garcia como minha terra. Ao ler o seu texto recordei os tempos de férias que passei lá, os banhos no pego, os porcos à solta nas ruas assim como as galinhas. Tudo mudou e ainda bem porque há melhor saneamento, luz eléctrica, água, esgotos etc.Conheci a ti Catarina Avó. Faleceu com 113 anos.cumprimentos