Aldeia de Castelo Novo

Bela de noite e de dia

A aldeia de Castelo Novo surge, para quem viaja na A23 desde o Sul, a caminho da Covilhã, do nosso lado esquerdo, anichada nas fragas da Serra da Gardunha. Banhada pelo sol, quando não escondida na rudeza da paisagem envolvente pelas sombras do entardecer, é sempre um constante convite a deixar o asfalto veloz e lembrar que ainda há sítios assim: puros e belos.

Foi isso que fizemos, um dia de Outono morno pelo sol já baixo. No entanto, é preciso confessar duas coisas: a primeira, que, sempre que rodávamos velozmente pela fita da auto-estrada e olhávamos para Castelo Novo, jurávamos a nós mesmos – e a quem connosco partilhava a velocidade fugidia – que, um dia, iríamos baixar o ritmo e parar em Castelo Novo; a segunda, que, quando entramos em Castelo Novo pela primeira vez, foi noite cerrada, depois de descermos as escarpas da Gardunha, integrando a caravana de uma muito memorável aventura, organizada pelo Clube Escape Livre, da Guarda, e que se chamou de “BMW X Experience – Aldeias Históricas 2009”.

Apetecer regressar
Por isso, depois de calcorrearmos a aldeia silenciosa e sem luzes nas janelas habitadas por ténues obras-primas de renda artesanal e adormecidas pelo veludo da meia-noite; de entrevermos a silhueta terna das casas, esmaecida em altos canteiros floridos; de ouvirmos o cantarolar cristalino das calhas de água gelada; de olharmos as luzes pontilhando a escuridão, lá do alto da amurada do Castelo, recortada na noite – a promessa tornou-se uma certeza. Temos que regressar.
Regressámos. Não entramos em Castelo Novo pela rua estreita daquela noite quente, mas pelo caminho que tínhamos então feito ao abandonar a aldeia, aquele que, vindo do Fundão, passa junto ao caminho para o Cabeço da Forca, até ao Largo da Bica.
Depois, passo a passo, medidos pela lentidão da descoberta, partimos, rumo ao Castelo. Para isso, não fizemos o percurso habitualmente turístico, mas antes rodeámos todo o povo, sempre com as encostas da Gardunha do nosso lado direito. Até que, subindo, desembocámos junto à Igreja Matriz, no largo onde existe o Centro do Visitante e a entrada para a escadaria que sobe ao Castelo.
É preciso agora dizer que vale a pena entrar na Igreja Matriz – fizemo-lo naquela noite, mas de dia estava encerrada. Erguida no séc. XVIII, alberga no seu interior diversas imagens, entre as quais a da localmente venerada Nossa Senhora da Serra.
Vale ainda mais a pena subir ao Castelo, do séc. XIII, construído no reinado de Sancho I. Do alto das suas muralhas, pode apreciar-se a paisagem dura e rude da Serra da Gardunha; ou espraiar os olhos para lá dela, a caminho do Fundão e da Covilhã. Um Miradouro Virtual convida a olhar mais de perto – ficando ainda a saber-se um pouco da História e das tradições de Castelo Novo.
Mas Castelo Novo não é apenas o seu Castelo, a sua Igreja Matriz ou o silêncio longínquo, mas quase palpável, das escarpas da Gardunha; nem, para os mais pragmáticos, as instalações de produção da leve Água do Alardo.
O conjunto de telhados, que se desdobra desde a encosta do Castelo, esconde muitos tesouros arquitectónicos, felizmente hoje bem preservados. De facto, Castelo Novo – que chegou a ser sede de Concelho e cujo edifício da Câmara é hoje Núcleo Museológico -  foi berço de algumas das mais brasonadas famílias beirãs, como os Gamboa, Correia Sampaio ou Falcão. E as suas casas apalaçadas dão a Castelo Novo aquele tom de encantamento, que fica no limiar entre o sonho de ontem e a razão de hoje. Ou seja, apetece ficar ali, sentados na rocha, entre canteiros de amores-perfeitos e goivos, a ouvir o murmurar dos fios de água pelas calhas; e pensar – em como era viver ali, século após século; em como ainda hoje o poder da lenda se sobrepõe à frieza dos motores e das comunicações virtuais. Nada, na verdade, como um bom fogo de lareira, o vento a uivar lá fora, e a força da palavra, cantando lendas de contrabandistas, de pastores e amores – os mesmos que a Gardunha encerra. E, claro, também Castelo Novo. Onde, para quem não está, apetece regressar. Até um dia.

Texto e fotos: Hélio Rodrigues

Uma resposta a Aldeia de Castelo Novo

  1. Maria diz:

    Eu acho isto….bue bue .. lindoo

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